O ser humano é, de fato, um ser estranho. Na contradição entre seus atos e seus sentimentos, revela algo profundamente inquietante, uma reverência à morte que muitas vezes parece superar o apreço pela vida.
Curioso, não?
Convivemos com pessoas todos os dias, mas as ignoramos, criticamos, ou simplesmente as tratamos com descaso.
E, no entanto, assim que a morte as leva, surgem as lágrimas, as homenagens e as palavras que nunca tiveram a chance de ser ditas.
Quantas vezes nos afastamos dos vivos, seja por orgulho, desentendimentos banais ou falta de tempo? Perdemos contato, evitamos ligações, deixamos de lado aquele abraço que poderia confortar. Depois, no velório, lá estamos, carregando uma tristeza que talvez seja maior pela culpa do que pela saudade. Levamos flores, fazemos orações e desejamos que a alma daquele que, em vida, tanto deixamos de lado, “encontre um bom lugar”.
Mas será que esse gesto tardio, esse teatro melancólico diante do caixão, realmente substitui o amor e a presença que negamos em vida?
É uma estranha ironia… o ser humano, que tanto se enche de desculpas para não visitar ou ouvir o outro enquanto ele respira, é o mesmo que encontra um dia inteiro para estar no velório. O mesmo que não tirava um minuto sequer para uma ligação é o que agora lamenta a morte como se nada mais pudesse ter sido feito. Deixamos de nos importar com os vivos, ignoramos as sutilezas do afeto, e depois transformamos os que partem em mártires, como se tivéssemos descoberto tardiamente o valor que eles tinham.
É uma relação doentia com a finitude, essa de quem ofende, critica e, em muitos casos, se esquece do outro em vida, para só então santificá-lo na morte.
Por que temos tanto receio de demonstrar carinho e respeito por aqueles que ainda estão aqui?
Por que apenas quando perdem a capacidade de ouvir, de responder, é que nos damos conta de que aquela voz, aquele olhar, aquele abraço tinham um valor insubstituível?
A morte não deveria ser um despertador para nos lembrar da importância de quem amamos. Enquanto estivermos vivos, devemos buscar enxergar o valor do outro em sua plenitude, reconhecendo suas qualidades e fraquezas, respeitando seus dias bons e ruins, e oferecendo-lhe um lugar ao nosso lado.
Não é preciso esperar a ausência para perceber o peso da presença!
Às vezes, parece que o ser humano só consegue compreender o valor do que perde, quando perde. E o que resta são homenagens póstumas, flores sobre túmulos, desculpas que ninguém mais pode ouvir e saudades que se tornam eternas.
Mas o real desafio é outro, é dar às pessoas, enquanto respiram, o amor, o respeito e o valor que lhes são de direito. Não esperemos a despedida final para ver o que sempre esteve diante de nós.
Aos olhos cegos do homem, é preciso redescobrir que o valor do ser humano está na sua vida, em suas palavras, em suas alegrias e dores, na sua presença real e palpável.
Que possamos aprender a valorizar o que é passageiro, porque somos todos passageiros. Estejamos atentos, generosos e verdadeiros com os que estão ao nosso redor.
É tempo de repensar, de olhar para os lados e para dentro de nós mesmos. Afinal, ainda estamos vivos. E enquanto houver vida, há uma chance de mudar a forma como enxergamos uns aos outros.