Há anos, fui tragada pela imensidão de um oceano que só os teus olhos sabiam esconder. Mergulhei, sem medo, nas profundezas verdes e cristalinas que refletiam tua alma, deixei-me levar pelas ondas suaves que dançavam ao ritmo do teu sorriso. Acreditei, talvez ingenuamente, que aquele brilho não fosse miragem, mas um farol que iluminaria para sempre os caminhos escuros dos meus dias.
Era Amor, ou assim eu pensava. Um Amor que mais parecia um delírio doce, alimentado pelas marés vazantes dos momentos em que tua presença tornava tudo pleno. Antes de ti, o Amor era apenas um som quebrado, duas sílabas sem nexo que não tinham força para preencher os vazios das horas. Meu mundo girava em torno das vontades alheias, enquanto o tempo me escapava, insosso, como areia entre os dedos.
Hoje, porém, há andorinhas no céu. O tempo das aves chegou, e com ele o murmúrio das copas das árvores, e dessa vez dois beija-flores me visitaram, (não tive tempo para filmar) tão livres quanto nunca fomos. Recordo, como se fosse um sonho distante, dos nossos diálogos, quase meus monólogos, das promessas que fiz e nunca ganharam raízes. E percebo que a primavera floresceu não lá fora, mas aqui dentro, no meu peito.
Encantada, assisti o desabrochar da minha própria força, da minha liberdade recuperada. Já não são os teus anseios que enchem meus dias, mas os meus próprios, desvelados em sua essência mais pura. Tua ausência, que outrora parecia um vazio impossível de suportar, agora é um espaço pleno de paz, onde minha alma pode respirar sem medo.
Houve um tempo em que teu sorriso era o sol que iluminava minhas manhãs, e teus olhos, a lua que velava meus sonhos. Mas também houve noites em que teu silêncio me feria como tempestade, e as palavras que eu não dizia pesavam como silêncios de chumbo. Hoje, vejo com clareza o que antes era apenas uma névoa, aquele príncipe de olhos brilhantes, que eu tanto quis amar, não passava de uma sombra que se alimentava da minha luz.
Mas não há mágoa, apenas gratidão pelo que foi e pelo que deixou de ser. Amar-te foi um aprendizado, e deixar de te amar, a maior de todas as lições. Hoje, sou primavera por inteira, florescendo em cada canto do meu ser, livre das correntes de uma paixão que me prendia mais a ilusões do que à verdade.
E assim, ao olhar para trás, vejo não um conto de fadas inacabado, mas um capítulo encerrado com dignidade. O oceano dos teus olhos que um dia me convidou a mergulhar já não me chama mais. Encontrei mares mais calmos em mim mesma, onde posso navegar sem medo de naufragar.
Porque, no fim, o Amor verdadeiro é aquele que começa em nós, floresce por nós e não se perde, mesmo quando o outro se vai.