Arquivo da tag: Divaneios; Textos;

A Maior de Todas as Lições

Há anos, fui tragada pela imensidão de um oceano que só os teus olhos sabiam esconder. Mergulhei, sem medo, nas profundezas verdes e cristalinas que refletiam tua alma, deixei-me levar pelas ondas suaves que dançavam ao ritmo do teu sorriso. Acreditei, talvez ingenuamente, que aquele brilho não fosse miragem, mas um farol que iluminaria para sempre os caminhos escuros dos meus dias.

Era Amor, ou assim eu pensava. Um Amor que mais parecia um delírio doce, alimentado pelas marés vazantes dos momentos em que tua presença tornava tudo pleno. Antes de ti, o Amor era apenas um som quebrado, duas sílabas sem nexo que não tinham força para preencher os vazios das horas. Meu mundo girava em torno das vontades alheias, enquanto o tempo me escapava, insosso, como areia entre os dedos.

Hoje, porém, há andorinhas no céu. O tempo das aves chegou, e com ele o murmúrio das copas das árvores, e dessa vez dois beija-flores me visitaram, (não tive tempo para filmar) tão livres quanto nunca fomos. Recordo, como se fosse um sonho distante, dos nossos diálogos, quase meus monólogos, das promessas que fiz e nunca ganharam raízes. E percebo que a primavera floresceu não lá fora, mas aqui dentro, no meu peito.

Encantada, assisti o desabrochar da minha própria força, da minha liberdade recuperada. Já não são os teus anseios que enchem meus dias, mas os meus próprios, desvelados em sua essência mais pura. Tua ausência, que outrora parecia um vazio impossível de suportar, agora é um espaço pleno de paz, onde minha alma pode respirar sem medo.

Houve um tempo em que teu sorriso era o sol que iluminava minhas manhãs, e teus olhos, a lua que velava meus sonhos. Mas também houve noites em que teu silêncio me feria como tempestade, e as palavras que eu não dizia pesavam como silêncios de chumbo. Hoje, vejo com clareza o que antes era apenas uma névoa, aquele príncipe de olhos brilhantes, que eu tanto quis amar, não passava de uma sombra que se alimentava da minha luz.

Mas não há mágoa, apenas gratidão pelo que foi e pelo que deixou de ser. Amar-te foi um aprendizado, e deixar de te amar, a maior de todas as lições. Hoje, sou primavera por inteira, florescendo em cada canto do meu ser, livre das correntes de uma paixão que me prendia mais a ilusões do que à verdade.

E assim, ao olhar para trás, vejo não um conto de fadas inacabado, mas um capítulo encerrado com dignidade. O oceano dos teus olhos que um dia me convidou a mergulhar já não me chama mais. Encontrei mares mais calmos em mim mesma, onde posso navegar sem medo de naufragar.

Porque, no fim, o Amor verdadeiro é aquele que começa em nós, floresce por nós e não se perde, mesmo quando o outro se vai.

O Corpo – Uma Dádiva Divina

Quando olhas para mim, vês apenas a superfície, um corpo que se movimenta, fala e expressa sentimentos. É comum pensarmos que este corpo é quem verdadeiramente somos, que ele representa nossa essência. No entanto, ele não é eu; ele é apenas uma veste passageira, um instrumento que me permite manifestar na vida terrena.

A Doutrina Espírita nos ensina que o corpo físico é uma dádiva emprestada por Deus, um veículo temporário para o espírito, que é eterno. Deus, em sua infinita bondade e sabedoria, nos concede o corpo para que, através dele, possamos experienciar o mundo material, interagir com nossos irmãos e, acima de tudo, evoluir em espírito. O corpo é, portanto, um santuário temporário, que devemos cuidar com zelo e respeito, mas nunca nos esquecer de que ele é apenas uma parte da jornada.

Assim como uma roupa que vestimos por algum tempo e depois deixamos de lado, o corpo é uma ferramenta transitória. O que realmente somos vai além da matéria; somos seres espirituais em evolução, habitantes de um universo vasto e repleto de oportunidades de aprendizado. A verdadeira essência está naquilo que sentimos, pensamos e aprendemos – é a centelha divina que cada um de nós carrega em si.

A cada vida que experimentamos, recebemos um novo corpo, adequado às provas e missões que assumimos antes de reencarnar. Esta dádiva é o reflexo do amor de Deus, que nos permite crescer e alcançar a perfeição, passo a passo, ciclo após ciclo. Assim, ao olharmos para o corpo com gratidão, compreendemos que ele é um presente divino que nos auxilia na busca pela elevação espiritual.

Que saibamos valorizar este presente, mas também recordar que ele é apenas um instrumento. Que possamos, assim, viver com leveza, sabedoria e alegria, reconhecendo que a verdadeira beleza está em nosso espírito – imortal, livre e eternamente ligado ao Criador.

Sobre decisões

Na vida, sei partir sem olhar pra trás. Invado tua rotina, teu sorriso, tua paz. Amar-te é um domínio que não posso conter, mas ao ir embora, meu destino é não pertencer.

Parto o peito para caber no teu abraço. Expondo-me ao mundo, sem medo, sem embaraço. O adeus é silencioso, palavras não precisas. Termino o que não iniciaste, minha sabedoria.

Quem gosta também desiste, é o amargo da verdade. E quem ama, sabe, a partida é a realidade. Acabou, não nós, o sentimento persiste, valemos a pena, mas a história não insiste.

Recomeçar é arte que conheço bem. Esquecer-te é o desafio, te juro, meu bem. Amar-te transcende, não conhece o fim, parte de mim, mas é parte de mim.

Me ofereço ao teu riso, à tua voz, nos entendemos, é minha única voz. Saudade é magia, capaz de mover. Mas não fique, te peço, é hora de esquecer.

Nós, vítimas do tempo, do destino, da sorte, dedos que o fim não traz consigo a morte. Não o culpo nem me culpes, somos o que somos. Querer em excesso não faz milagres, temos que ser sábios.

Foi lindo, foi intenso, o que gentilmente, enfim, foi, não é mais, nossa história chegou ao fim. Parti, mas o amor ainda resta em meu ser, aceite-o, por favor, deixa-o florescer.

Bom dia!

Bom dia!

Na aurora dourada, sob o manto celeste,

Bom dia desperta, suave e cálido este.

Que a luz do sol beije teu rosto sereno,

E que a brisa do amor dance em cada terreno.

Que as flores do dia desabrochem em cor,

Em jardins de esperança, um eterno fulgor.

Que a paz te envolva, como um abraço sincero,

E que cada sorriso seja um verso inteiro.

Que os raios de luz te conduzam ao caminho,

Onde a harmonia e a serenidade são vizinhas.

Que a jornada seja leve, cheia de calor,

E que o coração celebre o dom do amor.

Bom dia, como uma canção suave a soar,

Que a alegria se faça presente, a persistir no ar.

Que a paz te acompanhe, como fiel amiga,

E que a doce melodia da vida, em ti, siga!

A bruxa que vive em mim saúda a bruxa que vive em ti!

As bruxas, ao longo da história, simbolizaram mulheres fortes, empoderadas e insubordinadas, que se recusavam a se submeter aos padrões impostos. Eram conhecedoras da natureza, das plantas e dos mistérios que envolvem a vida e a morte. Detinham um saber profundo sobre seu corpo, seu ciclo, seu poder. Algumas preferiam a solidão da floresta, acompanhadas pelos animais e suas ervas, vivendo com liberdade e conexão com o mundo ao seu redor. Outras escolhiam companheiros, mas jamais se permitiam ser subjugadas como as demais mulheres da época.

Essas mulheres guardavam a sabedoria ancestral, sabiam curar, dançavam sob o luar, contavam histórias, tinham visões e intuições. Elas eram, em suma, mulheres plenas em sua essência. Contudo, por sua postura ameaçadora ao patriarcado, que não compreendia a profundidade de seus conhecimentos e temia sua independência, foram perseguidas, marginalizadas e, muitas vezes, cruelmente executadas durante a Idade Média, em um dos maiores feminicídios da história.

As bruxas, então, foram associadas a imagens de horror: feias, solitárias, velhas, loucas e, sobretudo, perigosas. Essa perseguição não apenas tirou vidas, mas afastou as mulheres de sua própria essência, forçando-as, por sobrevivência, a renegar sua natureza instintiva e selvagem, a esconderem-se e a tratarem seu próprio corpo como fonte de vergonha.

Carregamos, hoje, essa história em nossa pele e em nossa memória, com a chama da Inquisição ainda ardendo, mas agora como símbolo de resiliência. De suas cinzas, renascemos. A cada dia, sob cada lua, resgatamos a força, a sabedoria e o poder que nunca nos deixaram.

A bruxa que vive em mim saúda a bruxa que vive em ti. Que possamos, juntas, honrar essa ancestralidade e reconquistar, com coragem e respeito, o espaço que sempre nos pertenceu.

E o tempo passou…

E o tempo passou e ela viveu cada segundo.

Fez aquela viagem inesperada.

Se jogou em loucuras que marcaram sua alma.

Perdeu o sono mais de uma vez, devorando livros até o amanhecer.

Sorriu para o espelho e se elogiou sem medo.

E o tempo passou e ela usou aquele vestido longo só porque sim.

Pintou o cabelo de cores que nunca imaginou.

Abriu o coração para o desconhecido e se surpreendeu.

Se deu o luxo de comprar o perfume que sempre quis.

E o tempo passou e ela desnudou sua alma sem vergonha.

Pisou no freio para aproveitar cada curva do caminho.

Partiu sem rumo e encontrou novas versões de si mesma.

Teve encontros profundos com quem era por dentro.

E o tempo passou e ela se tirou do varal.

Nunca se deixou para depois.

E mesmo quando se doou aos outros, não esqueceu de si.

Encontrou forças naquilo que amava.

Descobriu prazeres no simples e no extraordinário.

Viveu para o mundo, mas, acima de tudo, aprendeu a viver para ela.

E, quando olhou para trás, só encontrou gratidão.