Todo patrão tem os funcionários que merece.

Eu, como boa observadora e consumidora (ou talvez só um ser humano com um resquício de bom senso), saí para fazer algo simples, tomar uma cerveja e comer um sanduíche, era 13 de março, semana do consumidor (quanta ironia).

Só que, no Brasil, a gente nunca sai só para isso. Sai para uma experiência completa, que inclui teste de paciência, análise comportamental e, claro, uma pitada de teatro social gratuito.

Cheguei no barzinho (que vende sorvetes, açaí e também é hamburgueria), sentei numa mesa, e lá estavam “eles”, dois funcionários sentados, batendo papo e desbravando o vasto universo dos celulares, aparentemente imersos em algo muito mais importante do que um cliente a um metro de distância. Esperei três minutos, e nada. Chamei (porque sou resiliente, mas não sou invisível), e finalmente veio a cerveja. Não o sorriso, não o “boa noite, o que vai querer?”, só a cerveja mesmo, na prática do “toma e me deixa em paz.”

Até aí, tudo bem. Eu também já fui funcionária e entendo que às vezes a energia está no modo “só estou aqui pelo salário.” Mas a obra-prima veio depois.

Chega a dona do bar, a patroa, a líder, a inspiração, o exemplo vivo… do que não fazer.

Senta numa mesa, (ao lado da minha) pega o celular e… bom, foi isso. Ela só ficou lá, fixada na tela, sem olhar para cliente algum, sem erguer a cabeça.

Os funcionários, coitados, vendo a chefe nesse estado meditativo-digital, fizeram o quê? O mesmo, claro! Pegaram os celulares e se uniram ao grande ritual da desconexão com a realidade.

Eu, que sou teimosa e gosto de estudar comportamento humano em ambientes selvagens, pedi a segunda cerveja. Só para ver até onde ia. Na terceira, resolvi testar a tradição local, peguei a cerveja direto do isopor e deixei na mesa, aquele código não verbal universal do “traz a próxima, campeão.” Nem uma alma viva percebeu.

Lá pelas tantas, quando o barzinho encheu (afinal, ter cinco mesas lotadas, não é o Maracanã), o caos se instaurou. As mesas começaram a fazer aquela dança clássica do cliente brasileiro, olhares cruzando, pescoços esticando, alguns levantando o braço discretamente, outros com um “psiu” tímido. Nada. Só após o bom e velho grito alguém veio dar um sinal de vida.

E aí veio o ápice da peça teatral, a moça da cozinha saiu, bateu papo com a dona (que até então não tirava os pés da mesa), e só depois voltou para preparar meu sanduíche.

A dona? Continua firme e forte na missão de não se mexer e não olhar para ninguém, como se o bar fosse uma realidade alternativa que ela não reconhece.

A conclusão é simples, todo patrão tem o funcionário que merece. Quer funcionário comprometido, que atende bem, que se importa? Pois bem, levante da cadeira, largue o celular e dê o exemplo. Mas quando a dona do negócio passa a mensagem silenciosa de que “aqui ninguém tá nem aí,” o funcionário só segue a coreografia.

Liderança não se impõe, se exerce. E se a chefe está mais interessada no feed do Instagram do que no próprio negócio, os funcionários não vão mesmo se preocupar com o meu sanduíche. E quer saber? Eles estão só reproduzindo o que aprenderam.

Patrão que inspira preguiça tem equipe que entrega desleixo.

E, no fim das contas, a única boba que ficou até a terceira cerveja para escrever essa análise fui eu. Mas ao menos saí com uma lição de vida, da próxima vez, vou direto na minha geladeira, pego minha cerveja e peço um sanduíche em casa.

Afinal, se até a dona do bar desistiu do negócio, quem sou eu para insistir?

16/10/2025 Em homenagem ao Dia do Chefe!

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