Ctrl+X

Relacionamentos deveriam ser espaços de cuidado, presença e reciprocidade. Mas, às vezes, eles se transformam em algo muito diferente, quase como um documento editado sem critério, onde a tecla Ctrl+X reina soberana.

No início, há promessas de histórias bem escritas, capítulos que se interligam com sentido e emoção. Porém, com o tempo, percebo que, no nosso relacionamento, o Ctrl+X não é apenas uma função do teclado; tornou-se a metáfora perfeita para o que vivemos – ou melhor, para o que deixamos de viver.

Você recorta. Recorta os momentos que deveriam ser nossos, como se pudessem ser armazenados para depois. Recorta o tempo que deveria ser dedicado a uma conversa, um olhar, uma ligação. Recorta até as palavras que nunca chegam – aquelas que poderiam ter construído um diálogo, mas ficaram perdidas na área de transferência, esperando um destino que nunca vem.

Enquanto isso, fico aqui, vendo pedaços de nós desaparecendo. Você tem acesso a tudo: mensagens que não responde, chamadas que não faz, convites para construir uma rotina que ignora. É como se o Ctrl+X fosse seu recurso favorito – o botão mágico para cortar as partes incômodas, como se isso apagasse a ausência, o silêncio, a indiferença.

Mas sabe o que é mais triste?

No mundo digital, o Ctrl+X implica que algo será colado em outro lugar. No nosso caso, parece que você só recorta. E não há mais lugar para colar o que um dia foi amor, cuidado e dedicação. O espaço vazio que sobra é onde antes morava a esperança de um relacionamento inteiro.

Lembro-me de você como alguém que me ensinou, sem querer, o significado prático do Ctrl+X: cortar o que não se quer encarar. Infelizmente, descobri que, assim como no teclado, quem controla essa função é você.

E eu?

Eu apenas observo o texto da nossa história ficando cada vez mais curto, mais fragmentado, mais vazio.

Eu queria tanto que você usasse outra tecla.

Talvez o Ctrl+S, para salvar o que ainda restava de nós.

Ou o Ctrl+Z, para desfazer as marcas da sua falta de atenção.

Mas, enquanto você insiste em recortar, eu percebo que o único caminho é apertar Delete – não para esquecer, mas para libertar.

Porque mereço mais do que um relacionamento editado.

Mereço um que seja escrito a duas mãos, com parágrafos inteiros de amor, respeito e presença.

E se você só sabe usar o Ctrl+X, talvez seja hora de eu mesma escrever uma nova história, desta vez sem cortes.

Um comentário em “Ctrl+X”

  1. Que texto profundo ! Você conseguiu traduzir de forma brilhante a complexidade dos sentimentos que envolvem um fim. Essa analogia com as teclas do teclado é genial, porque nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos e as marcas que deixamos. Parabéns por transformar emoções tão intensas em algo tão belo e contemporânea!

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